Diviso meu rosto no espelhinho do lotação. Tirei os óculos por causa do calor, de modo que não posso distinguir minhas feições, mas vejo o contorno magro e a palidez da pele. Quem manda (penso eu) ficares a dissipar tua saúde a pretexto de ganhar experiência e de esquecer a única mulher que verdadeiramente amaste... Agora pareces uma caveira esverdeada: assim, quem te querá? A julgar pelo teu aspecto, terás no máximo mais cinco anos de vida, e eu pergunto: - Quando te fores, quem escreverá teus livros? Quem criará teus filhos? Quem vai saborear em teu lugar a tranquila maturidade? Bem sabes que só se vivi uma vez, de modo que, para o teu próprio bem, devias mudar de conduta enquanto é tempo. Dormirias antes da meia-noite, Beberias água somente. Comerias carne grelhada, privar-te-ias de manteiga e das saborosas empadinhas de camarão que desmancham na boca; farias ginástica ao nascer do dia, não te preocuparias durante as refeições, renunciarias às fantasias e dúvidas que te queimam os miolos; entregar-te-ias a uma serena amizade com pessoa de temperamento simples, uma senhorita prendada como existem tantas; lerias somente romances policiais e escolherias na imprensa, para o teu deleite, as seções mais amenas, como as palavras cruzadas, o horóscopo e o joguinho dos sete erros; viverias, enfim, cautelosamente. Assim, em pouco tempo, serias um cidadão perfeitamente integrado na sociedade em que vives, e poderias aspirar a uma velhice longa e calma; morrerias venerável, merecendo este epitáfio edificante; - “Aqui jaz um homem de bem”. Haverá mais belo destino para um pobre bípede cujo planeta gira em torno do si?
Tendo apanhado o lotação na Cinelândia, cheguei completamente outro ao Túnel Novo. Olhei para trás com tristeza e remorso, prometendo a mim mesmo que dalí por diante a minha vida seria diferente. Almejava aquele epitáfio edificante, e me senti feliz quando o veículo percorreu a escuridão para investir contra a claridade do leme, exatamente como minha alma, deixando as trevas da incerteza mergulhara na luz do bom senso e da respeitabilidade.
O lotação freio no primeiro quarteirão da Barata Ribeiro e o meu lastimável rosto ergueu-se no espelhinho. Verifiquei então que não era eu quem se refletia nele, mas o rapaz do banco da frente, o qual pagou a passagem e desceu, com sua cara triste, para um destino repugnante. Quanto a mim, respirei aliviado, e fiquei em dúvida se passaria a noite no Jirau ou no Sancha’s. Aqui jaz um homem de bem... Quá, quá, quá!
Os Olhos Dourados do Ódio
José Carlos Oliveira
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