segunda-feira, 18 de julho de 2011

Não traí, antes fui traída.

Quem é você, face adormecida de meu esposo? Por quais caminhos peregrinam os sonhos quando a asa da noite vem cerrar os olhos? Mesmo que eu chegue perto de suas pálpebras, Henrique, e na boca eu sinta o respirar tranquilo, longe estou de saber se você me entendeu em minha traição... Não traí, antes fui traída por aquilo que imaginava fossem meus desejos. Quantas vezes depois busquei seu rosto em meio a tantos que vivem na penumbra desse morro? Seu olhar me escapava esse olhar que hoje deve suportar tantos outros, uns condoídos, outros amigos, outros maculados pela perversidade da dúvida. O silêncio que todos se impuseram é mais pesado para nós do que para eles. Os olhos deles, porém, são ferros candentes que rompem as pupilas e rasgam as entranhas. Todos sabem de meu pecado, devem saber. E que não sabe, imagina; talvez multipliquem por dez, por mil, as vezes que traí. Alguns, como você, preferem não saber; há algo mais sério e doloroso acontecendo nas ravinas desse morro para que se preocupem com algo que deve interessar apenas a nós, o casal Henrique e Elisabeth Carolina. Mas não estou sossegada. Tenho delírios que me fazem acordar no meio da noite e procurar seu rosto...
Hoje percebi, mais uma vez, o quanto João Lehn ainda me domina – quando o vi chegar, triunfante no Pégaso, pensei que minhas pernas não suportariam o peso de meu corpo. Escondi-me entre as paredes do Templo em lugar que pudesse ver sem ser vista; inútil, porém. Pouco a pouco, aproveitando que você e todos os outros estavam de costas, fiz-me visível. Ele então me viu, mas o rosto manteve-se duro como uma pedra. Prefiro imaginar que era a raiva – não de mim – que o deixava daquela forma. E quando ele foi embora, foi como se aquelas mãos me levassem junto para os delírios das tardes arrebatadas onde eu esquecia que, antes de trair, estava sendo traída. Como você vê, tenho razões para acordar-me nesta noite.
Mas não quero despertá-lo, meu esposo. Seus olhos, de tão cansados de sustentar os olhares dos outros, não me permitem pedir que olhe para mim. É preciso que descansem, pelo menos durante o bálsamo de uma noite.
Videiras de Cristal
Luiz Antônio de Assis Brasil

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